Pix, Open Finance e inteligência artificial (IA) estão redesenhando a forma como a tesouraria mede liquidez, executa pagamentos, controla riscos e antecipa necessidades de caixa. O que antes era um conjunto de rotinas batidas em horários fixos (com conciliações D+1 e previsões mais “artesanais”) passa a operar com dados intradia, integrações via APIs e modelos preditivos que aprendem com o comportamento real das entradas e saídas.
Esse movimento não é teórico: o Pix já responde por cerca de 51% das transações de pagamento no Brasil no 1º semestre de 2025, somando 36,9 bilhões de transações no período, segundo estatísticas do Banco Central (50,9% de participação e crescimento de 27,6% versus o 1º semestre de 2024). Ao mesmo tempo, o Open Finance escala com dezenas de milhões de autorizações ativas, e a IA amadurece como instrumento de previsão e automação. Para a tesouraria, a pergunta deixa de ser “se” e passa a ser “como” capturar valor, com governança e controles.
1) Pix como infraestrutura central de pagamentos: do volume ao valor
O Pix deixou de ser apenas um meio “rápido e barato” e passou a ser uma infraestrutura central para o fluxo de pagamentos no país. No 1º semestre de 2025, o Pix respondeu por aproximadamente 50,9% das transações de pagamento no Brasil, com 36,9 bilhões de transações, consolidando uma base ampla e recorrente de uso. Para a tesouraria, isso significa mais eventos para conciliar, mais pontos de contato com clientes e fornecedores e maior necessidade de automação.
Além de dominar em quantidade, o Pix vem ganhando relevância também por valor transacionado, que é um indicador mais próximo da realidade da tesouraria corporativa. No 1º semestre de 2025, o Pix representou 26,5% do valor total transacionado, ficando atrás apenas da TED (37,1%). Essa proximidade com instrumentos tradicionalmente “corporativos” muda o desenho de políticas de pagamento, limites, alçadas e estratégias de liquidez.
O perfil B2B do Pix aparece em métricas operacionais do SPI (a infraestrutura de liquidação do Pix): 12,5% das transações no 1º semestre de 2025 foram de PJ→PF ou PJ→PJ. Embora ainda não seja a maioria, esse percentual já é grande o suficiente para justificar produtos e processos específicos (pagamentos massivos, gestão de chaves, rotinas de aprovação e reconciliação automatizada), sobretudo em empresas com alto volume de pagamentos a prestadores e a pequenos fornecedores.
2) Liquidação, janelas intradia e gestão de liquidez com dados do SPI
Uma mudança prática trazida pelo Pix é a possibilidade de olhar a liquidez de forma intradia com mais granularidade. O Banco Central publica séries diárias com quantidade, valor total e valor médio de liquidação e monitoramento no SPI, o que permite identificar janelas de pico, sazonalidades e padrões por dia da semana. Na tesouraria, isso apoia decisões como reforço de saldo em contas operacionais, desenho de “buffers” e escolha de horários de processamento de lotes.
Essas séries oficiais também ajudam a separar ruído de tendência. Por exemplo, janeiro de 2026 é uma referência útil para sazonalidade: foram 6,33 bilhões de transferências via Pix e R$ 2,69 trilhões em valores no mês, segundo estatísticas reportadas com base em dados do BC. Em termos de planejamento, números desse porte ajudam a calibrar capacidade operacional (conciliação, atendimento, prevenção a fraudes) e cenários de estresse (picos concentrados em determinados horários).
Na prática, uma tesouraria pode transformar dados intradia em indicadores acionáveis: “curva de liquidação por hora”, “picos por canal”, “tempo médio de conciliação” e “taxa de exceções”. Combinando isso a políticas de varredura de contas (sweeping) e a integrações com ERP/TMS, o Pix deixa de ser apenas um meio de pagamento e vira um componente do motor de gestão de caixa, com rotinas quase em tempo real.
3) Pix por aproximação e o que (ainda) não muda no mix de pagamentos
Nem toda inovação em Pix tem impacto imediato na tesouraria. O Pix por aproximação (NFC) completou 1 ano com adoção ainda residual: em janeiro de 2026, foi apenas 0,01% das transações Pix e 0,02% do valor total. No mês, registrou 1,057 milhão de transações e R$ 568,73 milhões em valores, o que sinaliza crescimento, mas ainda com baixa representatividade diante do universo total do Pix.
Para uma tesouraria de varejo, a leitura pragmática é que o Pix por aproximação, neste momento, ainda não “move a agulha” do mix de recebimentos nem altera de forma material a conciliação e a projeção de caixa. Ele pode ser relevante em iniciativas específicas (experiência no checkout, redução de fricção, campanhas), porém não costuma justificar, sozinho, uma reengenharia completa do backoffice.
Isso não significa ignorar o tema. A abordagem mais eficiente é acompanhar métricas internas (taxa de adoção por loja/canal, ticket médio, custo total de aceitação, impacto em chargebacks/contestações e tempo de liquidação percebido) e manter a arquitetura pronta para escalar, caso a participação cresça. Em tesouraria, a disciplina é separar “sinal” (impacto em caixa e risco) de “novidade” (apelo de canal).
4) Open Finance na tesouraria: dados, iniciação de pagamentos e capital de giro
O Open Finance cria uma camada de interoperabilidade orientada a consentimento, ampliando a capacidade de consolidar informações e executar fluxos entre instituições. O Banco Central divulgou que o ecossistema chegou a 103 milhões de autorizações ativas e 68 milhões de contas, indicando escala suficiente para que empresas e bancos desenhem experiências com mais cobertura. Para tesouraria, isso se traduz em potencial de visibilidade multi-banco e automação de rotinas que antes exigiam portais, arquivos e conciliações manuais.
O impacto vai além de “ver saldo”. O BC também apontou que R$ 31 bilhões em operações de crédito se originaram da análise de dados do Open Finance, um dado diretamente relevante para gestão de capital de giro e negociação de linhas. Com mais dados transacionais e comportamentais, a tesouraria pode buscar condições melhores (taxa, prazo, garantias) e reduzir dependência de relações bancárias únicas, desde que haja governança e estratégia de dados bem definidas.
Mesmo em pagamentos/transferências, o Open Finance começa a ganhar tração: o BC informou movimentação de R$ 1,16 bilhão somente em julho (métrica pontual do comunicado do evento). Embora ainda pequeno frente ao total de pagamentos do país, esse número ajuda a dimensionar que a trilha de pagamentos via Open Finance existe e cresce. Para tesouraria, o desafio é decidir onde faz sentido: iniciação de pagamentos para reduzir fricção e custo, ou como redundância operacional (um “plano B”) para manter continuidade em cenários de instabilidade de canal.
5) Open Finance Analytics: consentimentos, funis e telemetria de APIs como KPI de tesouraria
Um diferencial do Open Finance é a disponibilidade de dados operacionais oficiais para quem quer medir eficiência do ecossistema e das próprias jornadas. O portal de dados do Open Finance Brasil lista conjuntos de indicadores que permitem construir painéis de performance e risco: consentimentos, funis e chamadas de APIs, por exemplo. Para tesouraria, isso abre espaço para uma gestão mais científica do que afeta coleta de dados, iniciação de pagamentos e automação de reconciliação.
O dataset de “Chamadas por APIs” (telemetria) permite acompanhar a evolução do volume de chamadas mensais, útil para entender carga, estabilidade e tendências de uso. Se uma empresa depende de agregação de dados para consolidar caixa, acompanhar variações de chamadas, latência e erros pode ser tão importante quanto acompanhar o saldo bancário. Em termos de controle interno, isso vira KPI operacional: disponibilidade do “pipeline” de dados que alimenta a posição de caixa.
Já o “Funil de Consentimentos” ajuda a medir intenção versus consentimentos efetivamente recebidos, permitindo diagnosticar fricções de onboarding e conversão. Isso é crítico quando a tesouraria está implantando fluxos de coleta de extratos/saldos ou jornadas de iniciação de pagamentos: se o funil “quebra”, a visibilidade de caixa e a execução podem falhar. Em outras palavras, tesouraria passa a ter também um componente de “gestão de jornada digital”, com métricas de conversão e qualidade.
6) Escala, sucesso operacional e segurança: o que observar para não travar a automação
Apesar da escala, pagamentos via Open Finance ainda enfrentam gargalos de execução. Um ponto citado para o ganho de escala é a taxa de sucesso: estimativas apontam que apenas 50% a 60% das operações “não apresentam erros”, enquanto cartões operam em patamar próximo de 99,5%. Para a tesouraria, isso é um alerta: automação sem redundância pode gerar filas, reprocessamento e impacto real em pagamentos críticos (salários, fornecedores estratégicos, tributos).
Ao mesmo tempo, há sinalizações positivas no desenho de controles. Em matéria da Agência Brasil, foi atribuída a Gustavo Lino (Init) a afirmação: “A segurança das transações no open finance é excelente. Os casos de fraude e golpes são ínfimos”. Do ponto de vista de tesouraria, isso ajuda a orientar o modelo de risco: o foco pode estar mais em disponibilidade, integridade de dados e gestão de consentimentos do que em “fraude sistêmica”, sem ignorar controles de autenticação, dispositivos e engenharia social.
Na prática, uma tesouraria que adota Open Finance para dados e pagamentos deve operar com: trilhas de auditoria de consentimento, monitoramento de falhas por etapa, reconciliação automatizada e fallback (canais alternativos como Pix tradicional, TED ou arquivos bancários). A maturidade vem quando a empresa trata APIs como infraestrutura crítica, com SLOs, monitoramento e governança comparáveis aos de sistemas financeiros internos.
7) Regulação e governança: a lição do “Pix Parcelado” para produtos e comunicação
A previsibilidade regulatória importa na tesouraria porque afeta produtos, fluxos de caixa e comunicação com clientes. Um caso emblemático foi o “Pix Parcelado”: em 03/10/2025, o Banco Central havia informado que publicaria regulação na última semana de outubro de 2025, sinalizando um caminho de padronização. Porém, em 04/12/2025, o BC desistiu de regular e proibiu o uso do nome “Pix Parcelado”.
Essa mudança tem implicações práticas. Primeiro, comunicação e transparência: empresas e instituições precisam revisar nomenclaturas, materiais e jornadas para evitar risco reputacional e de conformidade. Segundo, governança de produto: ofertas de parcelamento associadas ao Pix podem existir como estruturas de crédito ou “buy now, pay later”, mas devem ser descritas de forma precisa, com custos e prazos claros, para não confundir liquidação imediata (Pix) com financiamento.
Para tesouraria, o recado é manter um radar regulatório ativo e incorporar flexibilidade no desenho de produtos e integrações. Se a empresa depende de determinado fluxo (por exemplo, recebimento “à vista” com custo embutido em produto de crédito), a nomenclatura, a contabilização e a conciliação precisam estar alinhadas a regras vigentes. Governança aqui é reduzir surpresas: comitê interno, validação jurídica e trilha de mudanças em sistemas e relatórios.
8) Inteligência artificial na tesouraria: previsão de caixa, cenários e automação
A IA vem se tornando a camada que transforma volume de dados em decisões melhores e mais rápidas. Em “Treasury Insights”, o JPMorgan descreve o uso de IA e machine learning para produzir previsões com base em históricos e encontrar padrões “antes invisíveis”, aumentando a visibilidade do caixa. Para uma tesouraria pressionada por volatilidade (sazonalidade, promoções, variação de recebíveis), isso significa sair de projeções estáticas para modelos que se atualizam continuamente.
Do ponto de vista técnico, o mesmo material menciona modelos como redes neurais, random forests e ensembles, além de integração com ERP/CRM e dados em tempo real. Essa combinação é particularmente poderosa quando conectada ao Pix (liquidação e conciliação rápida) e ao Open Finance (agregação de dados multi-instituição por consentimento). Quanto melhor a qualidade e a atualidade dos dados, melhor tende a ser a resposta do modelo em horizontes curtos (D+0 a D+7) e médios (30 a 90 dias).
Há também alegações de ganho de acurácia relevantes para o business case: o JPMorgan cita, com base em estudos de caso, a possibilidade de “reduzir taxas de erro em até 50%” versus métodos tradicionais de previsão. No mercado de TMS, fornecedores como a Kyriba também posicionam “AI, APIs e analytics” como pilares para automação, integração com ERP e melhoria de acurácia. Para tesouraria, a implementação madura combina modelo (IA) + dados (Pix/Open Finance) + processo (alçadas, exceções, auditoria), evitando previsões “caixa-preta” sem governança.
O encontro entre Pix, Open Finance e IA tende a empurrar a tesouraria para um novo patamar: operações em tempo quase real, integração por APIs e decisões orientadas por dados. Os números recentes reforçam essa direção: Pix dominante em transações e relevante em valor, Open Finance com dezenas de milhões de autorizações e uma telemetria pública que permite medir eficiência, e IA ganhando espaço para aumentar acurácia e antecipar riscos.
O desafio é transformar possibilidade tecnológica em execução robusta. Isso passa por monitoramento intradia, desenho de contingências, governança regulatória (como mostra o caso do “Pix Parcelado”) e métricas claras para qualidade de jornada (funil de consentimentos) e estabilidade técnica (chamadas de APIs). Tesourarias que tratarem dados e integrações como infraestrutura crítica , e a IA como copiloto auditável, não como oráculo , estarão melhor posicionadas para reduzir custo, melhorar previsibilidade e sustentar crescimento.