Em 2026, o BPO financeiro entra em uma fase em que “transformação digital” deixa de ser um programa paralelo e passa a ser o próprio modelo de entrega. A pressão por eficiência continua, mas agora vem acompanhada por exigências de compliance digital, dados estruturados e expectativas de serviço mais consultivo , um cenário em que automação, IA e governança caminham juntas.
Os sinais de mercado apontam para uma adoção ampla, porém mais pragmática. A pesquisa da Gartner indica que 59% das áreas de finanças já usam IA em 2025 (praticamente estável vs. 58% em 2024), mas com 67% dos líderes usuários mais otimistas do que no ano anterior, sugerindo que a maturidade (e a confiança) está avançando mesmo quando a taxa de adoção desacelera (fonte: https://www.gartner.com/en/newsroom/press-releases/2025-11-18-gartner-survey-shows-finance-ai-adoption-remains-steady-in-2025).
1) O “salto” de IA e a corrida pela automação antes de 2026
O período 2023, 2024 marcou uma aceleração que preparou o terreno para 2026. A Gartner registrou um salto relevante: 37% das funções de finanças usando IA em 2023 para 58% em 2024, um indicador claro de corrida por automação no backoffice (fonte: https://www.gartner.com/en/newsroom/press-releases/2024-09-11-gartner-survey-shows-58-percent-of-finance-functions-use-ai-in-2024).
Esse impulso tende a mudar o que compradores consideram “padrão” em BPO financeiro. Se em ciclos anteriores a automação era diferencial, em 2026 ela passa a ser requisito mínimo , especialmente em processos de alto volume como contas a pagar (P2P), contas a receber (O2C) e conciliações no record-to-report (R2R).
Ao mesmo tempo, a estabilização em 2025 (59% vs. 58%) sugere que o próximo ganho não virá apenas de “mais IA”, e sim de melhor integração, qualidade de dados, redesenho de processos e gestão de mudança. Em outras palavras, o desafio migra de adoção para escala operacional com controle e retorno mensurável.
2) “AI-powered outsourcing” vira mainstream , mas o ROI não é automático
Em outsourcing, a IA já entrou no vocabulário (e nas propostas comerciais) de forma ampla. A Deloitte apontou que 83% dos executivos dizem estar usando IA como parte de serviços terceirizados e que 20% já criam uma estratégia para gerir “digital workers” (fonte: https://www.deloitte.com/global/en/issues/work/global-outsourcing-survey.).
Porém, os benefícios ainda não são generalizados: apenas 25% dos executivos reportam redução de custos de fornecedores ou melhoria de qualidade em outsourcing, apesar do interesse em IA (fonte: https://www.deloitte.com/global/en/issues/work/global-outsourcing-survey.). Para 2026, isso reforça uma lição: automação sem governança, métricas e desenho de operação pode aumentar complexidade e custo, em vez de reduzir.
No BPO financeiro, o comprador tende a cobrar mais transparência sobre onde a IA atua (triagem de faturas, detecção de anomalias, sugestão de lançamentos, atendimento ao usuário), quais controles existem e como se mede o impacto (SLA, acurácia, produtividade, retrabalho, risco). A conversa evolui de “tem IA?” para “qual decisão ela apoia e como é auditada?”.
3) De automação para autonomia: a ascensão da agentic AI (e seus riscos)
Uma mudança importante para 2026 é a transição de automação transacional para operações mais autônomas. O Everest Group descreve um movimento “de automação para autonomia” no Finance & Accounting Outsourcing (FAO), com crescimento de agentic AI e foco em workflows capazes de agir com maior independência (fonte: https://www.everestgrp.com/report/egr-2025-23-r-7748/).
Na prática, isso aponta para um BPO que não apenas executa tarefas, mas coordena ações: coletar evidências, abrir/acompanhar tickets, solicitar aprovações, reconciliar exceções e acionar regras de compliance. O mercado também sinaliza diferenciação competitiva: um exemplo público é a citação de que a Genpact estaria entre um grupo seleto com soluções agentic para F&A, segundo analista do Everest (fonte: https://media.genpact.com/2025-10-22-Genpact-Named-a-Leader-and-Star-Performer-in-Finance-Accounting-by-Everest-Group).
Ao mesmo tempo, cresce o risco de “agent washing”. A Gartner alertou sobre proliferação de ofertas “agentic” que, em parte, seriam reempacotamento de chatbots e RPA, com probabilidade de correção e consolidação (fonte: https://www.itpro.com/technology/artificial-intelligence/the-tech-industry-is-becoming-swamped-with-agentic-ai-solutions-analysts-say-that-s-a-serious-cause-for-concern). Para 2026, compradores e provedores precisam separar automação assistida (copilots) de autonomia real (agentes com orquestração e responsabilidades bem delimitadas).
4) GenAI no GBS/BPO moderno: do piloto ao portfólio
O tema GenAI não está restrito a experimentos. Na Deloitte 2025 Global Business Services Survey (dados coletados em Q3/Q4 de 2024 e publicados como 2025), cerca de 58% dos respondentes já começaram , ou planejam começar , a jornada de GenAI, com finanças entre as funções com casos como chatbots/ferramentas de IA, gestão de faturas e analytics (fonte: https://www2.deloitte.com/us/en/pages/operations/articles/2025-global-business-services-survey.).
Isso sugere que, em 2026, o “BPO financeiro digital” tende a operar um portfólio de casos de uso, e não uma única automação isolada. O objetivo é criar uma esteira: identificação de oportunidades, testes controlados, industrialização, monitoramento e melhoria contínua , com padronização para evitar dezenas de soluções desconectadas.
Há também um componente competitivo: o Everest avaliou 34 provedores de F&A em 2025 (PEAK Matrix), o que indica um mercado com concorrência forte e com IA/automação virando baseline para permanecer relevante (fonte: https://media.genpact.com/2025-10-22-Genpact-Named-a-Leader-and-Star-Performer-in-Finance-Accounting-by-Everest-Group). Em 2026, a disputa passa a ser sobre velocidade de implantação, governança, e capacidade de entregar impacto com qualidade e compliance.
5) Governança e modelo operacional: o que separa eficiência de “teatro digital”
Transformação digital em BPO financeiro depende de como a operação é governada. Na Deloitte 2025 GBS Survey, organizações com liderança global de GBS alcançaram, em média, mais de 20% de savings , um sinal de maturidade operacional e digital do modelo de entrega (fonte: https://www2.deloitte.com/us/en/pages/operations/articles/2025-global-business-services-survey.).
Em 2026, governança se torna o mecanismo que conecta tecnologia a resultado. Isso inclui: catálogo de serviços, ownership de dados, arquitetura de automação, gestão de exceções, trilhas de auditoria, gestão de acessos, e uma camada de “controles por design” (em vez de controles manuais adicionados ao final).
Outro ponto é a gestão de pessoas e “digital workers”. Com 20% dos executivos já pensando em estratégia para gerir trabalhadores digitais (Deloitte), cresce a necessidade de modelos claros: quem aprova mudanças de automação, como incidentes são tratados, como medir produtividade híbrida (humano + robô + agente), e como evitar dependência excessiva de scripts frágeis.
6) RPA em 2026: crescimento de mercado e integração com GenAI
Apesar do foco em GenAI, o RPA segue como infraestrutura crítica do BPO financeiro , especialmente para integração com sistemas legados e automação de tarefas determinísticas. Em jan/2026, uma previsão divulgada via GlobeNewswire (Research and Markets) indicou crescimento do mercado global de RPA de US$ 8,12 bi (2026) para US$ 28,6 bi (2031), com CAGR de 28,66%, impulsionado por integração com GenAI (fonte: https://www.globenewswire.com/news-release/2026/01/19/3221170/0/en/Robotic-Process-Automation-Market-Set-to-Expand-to-28-6-Billion-by-2031-Driven-by-Generative-AI-Integration.).
Outras estimativas de mercado circulam em business cases. Um exemplo (via GlobeNewswire, Precedence Research) projeta US$ 28,31 bi (2025) para US$ 35,27 bi (2026) e ~US$ 211,06 bi (2034) (fonte: https://www.globenewswire.com/news-release/2025/08/18/3135131/0/en/Robotic-Process-Automation-Market-Size-to-Hit-USD-211-06-Billion-by-2034-Driving-Enterprise-Efficiency-and-Cost-Savings-Through-Automation.). Independentemente da variação entre estudos, a mensagem para o BPO é que RPA não desaparece; ele se combina com GenAI para lidar melhor com exceções, documentos e linguagem natural.
Em 2026, a arquitetura vencedora tende a ser “RPA + IA/GenAI + orquestração”. RPA executa ações confiáveis (login, extração, lançamentos, integrações), enquanto modelos de IA classificam, resumem, priorizam e sugerem caminhos , com supervisão, limites e auditoria.
7) Compliance digital e reporting estruturado: automação no R2R e fiscal como obrigação
O futuro do BPO financeiro em 2026 é fortemente moldado por compliance digital. Nos EUA, atualizações do EDGAR empurram a modernização de pipelines XBRL/iXBRL. O EDGAR Release 25.1 passou a suportar taxonomias XBRL 2025 (fonte: https://www.sec.gov/newsroom/whats-new/2503-2025-xbrl-taxonomies-update) e o Release 25.2 suportou a IFRS Taxonomy 2025 e deixou de aceitar taxonomias 2023, exigindo atualização e controles (fonte: https://www.sec.gov/newsroom/whats-new/2506-edgar-252-release-xbrl-taxonomies-update).
A SEC também publica/atualiza especificações técnicas e guias XBRL (ex.: versão associada ao EDGAR Release 25.4, atualizada em jan/2026), reforçando padronização, validações e qualidade de dados (fonte: https://www.sec.gov/submit-filings/technical-specifications). Isso aumenta a demanda por automação de validação, reconciliação e evidências , áreas onde o BPO pode entregar valor reduzindo risco de erro material e retrabalho.
No Brasil, o compliance também acelera. Um exemplo é o novo layout da NFS-e (São Paulo), alinhado à reforma tributária, tornando-se obrigatório em 01/01/2026 (fonte: https://kpmg.com/us/en/taxnewsflash/news/2025/08/brazil-updated-e-invoicing-layout-sao-paulo.). Somam-se requisitos técnicos recorrentes como XML, assinatura digital ICP-Brasil e validação/autorização pela SEFAZ, com evolução de layouts culminando em 01/01/2026 (fonte: https://www.avalara.com/vatlive/en/country-guides/south-america/brazil/brazil-e-invoices.). Para o BPO financeiro, isso significa conectores fiscais, monitoramento de rejeições, trilhas e correções automatizadas como parte do serviço.
8) O que muda no contrato e na operação do BPO financeiro em 2026
Em 2026, contratos de BPO financeiro tendem a refletir o modelo digital: menos foco em FTE e mais em resultados, capacidade e controles. A maturidade observada em GBS com liderança global e savings superiores a 20% sugere que estrutura de governança, padronização e escala são determinantes (fonte: https://www2.deloitte.com/us/en/pages/operations/articles/2025-global-business-services-survey.).
Também ganha força a incorporação explícita de IA e automação ao escopo: backlog de automação, metas de straight-through processing, indicadores de qualidade de dados, auditoria e compliance. Como o “AI-powered outsourcing” já é amplamente declarado (83%), a diferenciação passa a ser a capacidade de provar valor , especialmente diante do dado de que só 25% veem redução de custos ou melhoria de qualidade de forma clara (fonte: https://www.deloitte.com/global/en/issues/work/global-outsourcing-survey.).
Por fim, a discussão sobre agentes impacta a operação: quais atividades um agente pode executar sem intervenção humana, quando precisa de aprovação, quais logs e evidências devem ser armazenados e por quanto tempo. Com a indústria (incluindo Big Four) acelerando plataformas de agentes e automação interna em finanças, a pressão competitiva aumenta (fonte: https://www.businessinsider.com/deloitte-ey-launch-agentic-ai-platforms-big-four-competition2025-3), mas exige disciplina para evitar “agent washing” e implantações frágeis.
Em síntese, o futuro do BPO financeiro em 2026 é híbrido: processos padronizados, automação (RPA) como infraestrutura, GenAI para ampliar capacidade analítica e atendimento, e agentic AI como próxima fronteira , desde que aplicada com governança rigorosa. A adoção pode parecer estabilizada em percentuais, mas o otimismo crescente entre líderes (Gartner) indica que a próxima onda é de efetividade, não apenas de experimentação.
Para organizações compradoras, a prioridade é escolher parceiros e modelos operacionais que entreguem compliance digital, qualidade de dados e transparência de controles, especialmente com pressões como XBRL/EDGAR e e-invoicing no Brasil. Para provedores, a vantagem competitiva estará em transformar automação em resultado auditável , reduzindo ciclo, erro e risco , e em provar que “digital” é método de entrega, não apenas promessa comercial.