Por décadas, o ERP foi visto principalmente como um “sistema de registro”: o lugar onde a empresa consolida transações, fecha o mês, controla estoque e garante conformidade. Essa função continua vital, mas já não é suficiente quando decisões precisam ser tomadas em ciclos cada vez mais curtos, com mais variáveis e mais pressão por explicabilidade.

Com a IA generativa e, sobretudo, com a ascensão de agentes e interfaces multimodais, o ERP está se tornando uma plataforma de decisão estratégica , capaz de interpretar contexto, sugerir ações, automatizar rotinas e orientar gestores com insights preditivos dentro do fluxo de trabalho. Essa transformação aparece de forma consistente nas movimentações recentes de Gartner, Oracle, Microsoft e SAP.

1) Do “sistema de registro” ao “sistema de ação”: o novo papel do ERP

A mudança central não é apenas adicionar um chatbot ao ERP, mas redefinir o ERP como um ambiente que conecta dados, regras, processos e decisões em tempo real. A Microsoft resume bem esse reposicionamento ao defender a transição de “static systems of record to dynamic systems of action”, colocando a IA como motor para sair do registro e chegar à execução.

Na prática, isso significa que o ERP deixa de ser consultado apenas no fim do processo (quando o problema já aconteceu) e passa a atuar durante o processo (quando ainda dá tempo de corrigir rota). Em finanças, por exemplo, a diferença entre detectar uma anomalia após o fechamento e agir durante a execução do ciclo pode representar economia direta, redução de risco e melhora de compliance.

Esse movimento também altera a forma como times trabalham: relatórios e dashboards continuam existindo, mas a experiência cotidiana migra para perguntas em linguagem natural, alertas proativos e sugestões contextualizadas. O ERP vira um “cockpit” contínuo, no qual o usuário conversa com o sistema, valida hipóteses e dispara ações , sem sair do fluxo.

2) Multimodalidade e “decision intelligence”: a interface do ERP está mudando

Segundo o Gartner (02/07/2025), “80% dos softwares corporativos serão multimodais até 2030 (vs. <10% em 2024)”. Isso tem implicação direta para ERPs: a interface deixa de ser apenas telas e tabelas e passa a combinar texto, voz, imagens, gráficos e contexto operacional para orientar decisões.

O mesmo Gartner, na mesma data, aponta que a GenAI multimodal vai “drive contextual decision intelligence” e permitir ações proativas em tarefas. Em termos de ERP, o salto é sair de uma aplicação que “registra o que aconteceu” para uma plataforma que “entende o que está acontecendo”, estima o que pode acontecer e recomenda o que fazer a seguir.

Multimodalidade também reduz barreiras de adoção. Um gestor pode pedir por voz “o que está pressionando a margem no último trimestre?”, receber uma explicação com visualizações e, em seguida, solicitar simulações (“e se eu renegociar frete em 3%?”) , tudo com rastreabilidade das fontes. O ERP se aproxima da forma como as pessoas realmente tomam decisões: combinando narrativa, evidências e cenários.

3) Agentes de IA embutidos: automação fim a fim e decisões no fluxo

A Oracle anunciou (15/10/2025) novos “AI agents” embutidos no Oracle Fusion Cloud Applications para “drive faster execution” e “make smarter decisions” em áreas como finanças, RH e supply chain. A mensagem é clara: a IA não é um acessório, mas um componente nativo dos processos corporativos.

Um ponto-chave do anúncio é a redução de fricção para escalar: os agentes são “natively integrated” e “embedded within the existing workflows”, com “advanced security” e “at no additional cost” (para clientes Fusion). Quando a IA já nasce dentro do workflow, com governança e segurança, ela deixa de ser piloto isolado e vira capacidade operacional.

Nos exemplos citados para Oracle Fusion ERP/EPM , como Payables Agent, Ledger Agent e Planning Agent , aparece um padrão: monitoramento em linguagem natural, automação de rotinas e geração de ajustes recomendados. Isso aproxima o ERP de um “cockpit decisório” contínuo, capaz de detectar desvios, sugerir correções e acelerar a execução com menos retrabalho humano.

4) Finanças e supply chain como laboratórios do ERP decisório

Em finanças, a Oracle reforçou (15/10/2025) a ambição de “automating end-to-end workflows” e “delivering predictive insights” dentro de processos financeiros. A implicação estratégica é direta: o ERP passa a atuar antes do fechamento, antecipando riscos (ex.: conciliação, provisões, pagamentos) e reduzindo o custo de controle.

Esse enfoque também aparece em capacidades preditivas específicas. Em documentação de julho de 2025, a Oracle descreve o Predictive Cash Forecasting integrado ao Oracle Cloud ERP (Early Adopters), com pipelines “pre-seeded” e drill-down até transações. O drill-down é essencial porque transforma previsão em decisão: o usuário não recebe apenas um número, mas consegue entender “por que” e “de onde veio” para agir com confiança.

Em supply chain, a Oracle destacou (15/10/2025) automação, otimização de planejamento/fulfillment e “faster, data-driven decisions”. Cadeias de suprimento são ambientes de trade-offs constantes (custo, prazo, serviço, risco), e um ERP com IA capaz de sugerir ações e replanejar com contexto pode reduzir rupturas, excesso de estoque e atrasos , conectando decisão estratégica a execução operacional.

5) Copilots no Microsoft 365: a decisão “sai do ERP” e entra no trabalho diário

A Microsoft anunciou (20/10/2025) a solução Finance no Microsoft 365 Copilot como “geralmente disponível”, conectando dados e workflows do ERP (Dynamics 365 Finance ou SAP) diretamente em ferramentas como Excel e Outlook. O impacto é grande: a decisão não precisa esperar o usuário “entrar no ERP”; ela acontece onde o trabalho já ocorre.

Além de responder perguntas em linguagem natural, o Copilot busca dados do ERP sob governança e devolve respostas “traceable” e acionáveis, destacando anomalias e drivers. Em ambientes regulados, esse detalhe , rastreabilidade , é o que separa uma IA “interessante” de uma IA “utilizável” em processos críticos.

Há também evidência de ganho mensurável: pilotos relataram reduzir o tempo de conciliação “de dias para horas” com reconciliação assistida no Excel. Quando atividades de alto volume e alto risco são aceleradas sem perder controle, abre-se espaço para o time dedicar mais energia a análise, negociação e planejamento , o que eleva o papel do ERP na estratégia financeira.

6) SAP Joule e analytics no workflow: insights sob demanda, sem “trocar de tela”

No ecossistema SAP, o Joule vem consolidando a ideia de insights diretamente no processo. Em Q2/2025, “Joule analytical insights” passou a entregar suporte de decisão “on-demand” dentro do workflow, permitindo perguntas em linguagem natural e reduzindo “80%” dos passos para obter insights. Menos passos significam mais frequência de decisão orientada por dados.

Outro ponto relevante é que usuários podem obter insights sem abrir dashboards do SAP Analytics Cloud. Isso representa uma mudança arquitetural e cultural: o BI deixa de ser uma “ilha” consultada separadamente e passa a ser um componente do trabalho transacional, reduzindo latência entre perceber e agir.

Essa acessibilidade também aumentou com a expansão de idioma. Após o Joule ficar disponível no SAP S/4HANA Cloud Public Edition (19/12/2024), em Q1/2025 o SAP indicou suporte ao português entre 11 idiomas, o que viabiliza adoção mais ampla em operações globais e melhora a qualidade da tomada de decisão conversacional em contextos brasileiros e portugueses.

7) Orquestração, interoperabilidade e governança: a era dos agentes no ERP

A transformação atual não se limita a “um assistente por sistema”. Em 06/10/2025, o SAP apresentou assistentes “role-based” no Joule que coordenam agentes entre linhas de negócio, sugerindo uma suíte ERP capaz de orquestrar decisões cross-função. A própria SAP sintetizou a tese: “AI, data and applications come together… propel smarter decisions, faster execution” (Muhammad Alam).

Escala é outro sinal forte. Em 10/2025, a SAP comunicou a meta de “mais de 400 AI features… até o fim de 2025”, com “over 300 AI scenarios” e “1,900 Joule skills”. Quanto mais a IA vira “feature padrão” (e não projeto especial), mais o ERP passa a ser o tecido conectivo das decisões de negócio.

Para tornar isso sustentável, entram padrões e governança. Em 10/2025, o SAP destacou o agent builder no Joule Studio para criar agentes que “plan, reason” e coordenam fluxos multi-etapas via APIs e documentos em sistemas SAP e não-SAP. Em 11/2025 (SAP TechEd), surgem sinais de interoperabilidade com um roadmap de protocolo “agent-to-agent (A2A)” e colaboração com AWS/Google/Microsoft/ServiceNow, além de governança central via SAP LeanIX agent hub (GA) e “agent mining” com Signavio para rastrear ações e KPIs. Decisão automatizada sem observabilidade vira risco; com observabilidade, vira vantagem competitiva.

8) O que muda na prática: arquitetura, dados, segurança e capacidade de computação

Quando o ERP vira plataforma de decisão, a arquitetura tende a se orientar por agentes: componentes que entendem contexto, consultam fontes confiáveis, executam passos e retornam resultados auditáveis. A Microsoft Learn (03/02/2026) reforça esse caminho ao mencionar “Build agents for finance and operations with Model Context Protocol”, com GA em 27/01/2026, sinalizando padronização para conectar modelos, ferramentas e contexto de negócio.

O canal de comunicação também vira superfície de decisão. Em 29/01/2026, a Microsoft Learn apontou que o Copilot for Finance ampliou suporte nativo a ERPs (incluindo SAP e Dynamics 365 Business Central) e permite recuperar detalhes financeiros/atualizar faturas no Outlook. Isso é mais do que conveniência: é decisão contextual onde exceções acontecem (e-mails de cobrança, aprovações, disputas), com governança do ERP ao fundo.

Por fim, há o fator infraestrutura. Com mais IA embutida, cresce a demanda por computação e escala cloud. A Axios (02/02/2026) noticiou que a Oracle planeja levantar até US$ 50B em 2026 para expandir infraestrutura cloud por demanda de IA , um sinal de que ERPs com IA em produção exigem capacidade robusta para inferência, segurança, latência e disponibilidade. E mudanças comerciais aceleram adoção: em outubro de 2025, o The Verge reportou que a Microsoft pretende “bundlar” Copilots de Sales/Service/Finance no Microsoft 365 Copilot, o que tende a democratizar ainda mais capacidades de decisão conectadas ao ERP.

A IA está transformando ERPs em plataformas de decisão estratégica ao colocar inteligência (preditiva e generativa) dentro do processo, reduzir fricção com agentes embutidos e levar a tomada de decisão para as ferramentas do dia a dia. Com multimodalidade, conversas e visualizações passam a ser a interface natural para explorar cenários, entender drivers e acionar correções com rapidez.

O próximo diferencial competitivo não será apenas “ter ERP”, mas ter um ERP que orquestra agentes, garante governança e entrega decisões auditáveis no momento certo. À medida que SAP, Oracle e Microsoft consolidam essa visão , e o Gartner projeta um futuro multimodal , a pergunta para líderes deixa de ser “se” e passa a ser “como” desenhar dados, processos e segurança para que o ERP evolua de registro para ação.

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